Modelos de Obtenção de Doadores de Orgãos e Tecidos.

28/09/2009 - 11:00 hs às 12:00 hs

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Localidade: Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo

Coordenador(a): Prof. Dr. Eduardo Sadao Yonamine.

Palestrante: Dr. Reginaldo Carlos Boni

Diretor do Serviço de Captação de Órgãos e Tecidos da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.

1) O Dr. Reginaldo Carlos Boni iniciou a videoconferência agradecendo o convite para participar do projeto, e lembrando que iria falar sobre Modelos de Obtenção de Doadores de Órgãos e Tecidos;

2) Dr. Reginaldo comentou as más notícias e situações críticas. A obtenção de doadores passa por um contexto de perda. Por exemplo, da família onde o individuo não aguardava a morte de um familiar, e é nesse momento que os profissionais chegam para conversar com esta família. Portanto, cabe ao profissional que recebe um paciente potencial doador, lembrar-se da real necessidade, além de dar a devida atenção e o devido acolhimento. Muitas vezes, há o sentimento e o profissional não o interpreta direito, fazendo com que se volte numa ação negativa. Por exemplo, um familiar pede uma informação para o profissional do hospital, o qual não o atende de maneira adequada. Isso é considerado um ponto negativo do atendimento. Porque quando se chega à entrevista familiar, este familiar irá se lembrar deste e de todos os outros pontos que foram negativos, além daqueles positivos. Esta situação faz parte do processo da imagem fixa que a família tem sobre a doação e o transplante. O profissional deve prover ajuda, pois ele perdeu alguém que ele gostava muito, tentar diminuir a tensão nesse momento crítico, e finalmente solicitar a doação se couber naquele momento;

3) Dr. Reginaldo destacou a importância do processo de doação. Deve-se ressaltar a necessidade de doadores em uma sociedade, lembrando que essa sociedade será a receptora desses órgãos que foram doados. Citou ainda os quatro pontos principais do ciclo vital: sociedade, doação, extração e transplante. O trabalho dos profissionais de saúde começa com o diagnóstico de morte encefálica. Por isso, é importante que os profissionais estejam envolvidos no atendimento ao paciente. É importante lembrar-se da possibilidade do indivíduo portador de algumas patologias evoluir para a morte encefálica. Quando se fala de morte encefálica, refere-se à morte de acordo com o ponto de vista ético, legal e clinico. Deve-se apontar sobre a possibilidade desse indivíduo auxiliar um número grande de pessoas, as quais também estão correndo risco de morte;

4) Dr. Reginaldo explicou como é realizado o diagnóstico. Consolidada no Brasil, há a resolução CFM nº 1480 de 1997, a qual caracteriza a morte como uma entidade de característica irreversível, na qual dois profissionais médicos avaliam clinicamente o individuo, realizando exame complementar (eletroencefalograma). Quando esses dois médicos finalizam o diagnóstico, é nesse momento que há a possibilidade de solicitar a doação. Existem atualmente dois modelos para obtenção de órgãos. O primeiro modelo, que já é ultrapassado e não é usado mais, ocorria quando o médico realizava o diagnóstico de morte encefálica, falava com a família, retirava o órgão, distribuía entre os candidatos e transplantava este órgão. Esta situação gerava conflitos de interesses, pois o médico poderia selecionar para quem iria determinado órgão. Nos EUA nos anos 80, foram criadas as organizações de procura de órgãos, sendo este o modelo, o qual foi importado parcialmente. Estas organizações estão situadas fora dos hospitais nos EUA, cabendo a elas identificar seus doadores e, portanto, disponibilizar órgãos para determinados hospitais. O segundo modelo, o qual é utilizado em São Paulo e, mais especificamente na Santa Casa, destaca a questão do coordenador extra-hospitalar de doação, que é mais conhecido como modelo espanhol. Nesse modelo há algumas diferenças em relação ao modelo norte-americano, principalmente, pela qualidade do resultado, a qual é muito maior;

5) Dr. Reginaldo ressaltou a importância do modelo espanhol, pois este é o modelo que mais obtém doadores no mundo. É um modelo descentralizado que congrega uma organização nacional com coordenações regionais, e finalmente, cada um dos hospitais espanhóis faz esse transplante. Não existe um ou mais coordenadores de doação e sim profissionais específicos para essa função. O médico, geralmente é um pronto socorrista, que atende às emergências e urgências. A mesma coisa acontece dentro dos hospitais que têm programas ou potencialidade de doadores de órgãos. No Estado de São Paulo, o qual aparece no gráfico, existem os modelos importados, os modelos das organizações de procura de órgãos. Então, em cada uma dessas áreas no Estado de São Paulo, há dez organizações. Essas organizações, diferentemente dos EUA, estão dentro de hospitais universitários ou filantrópicos. Foi feita uma comparação desse Estado, que é praticamente um país, com a Espanha, a qual tem, aproximadamente, 40 milhões de habitantes, e onde há uma descentralização bastante importante, possuindo um grande número de doadores;

6) Dr. Reginaldo frisou como é feito o trabalho de doações nos hospitais, comentando quem e quando pode realizar a doação. “O enfermeiro vai até a unidade, pergunta se há algum potencial doador, e no caso de existir, nós passamos a acompanhar esse caso.” Atualmente, quem pode assinar a doação é sempre um parente da linha reto-lateral até um parente de segundo grau. Quando ocorre a situação de não existir um familiar, é feito um pedido de autorização para o juiz. Algumas vezes, os juízes acreditam que isso é possível, mas outros acreditam que não e acabam negando a doação. Durante o entrave, no caso das entrevistas, há aproximadamente 25% de negatividade familiar devido à falta de entendimento de morte encefálica, quando a família não é informada da abertura do protocolo, atendimento hospitalar, havendo entrevistas realizadas de maneira inadequada. Cabe ao profissional de captação e aos colegas que identificam esses potenciais doadores, validar o doador. Esse ciclo se fecha com a distribuição dos órgãos, a qual acontece hoje na Central de Transplantes. Finalizou dizendo que é fundamental haver comunicação, atitude, conhecimento e gestão;

7) Prof. Dr. Eduardo Sadao Yonamine (Coordenador de Ensino à Distância de Telemedicina da FCMSCSP) tomou a palavra e fez a seguinte pergunta: “Existe uma grande informação sendo passada para o público, de um modo geral, de que é importante a doação. Contudo, acho que falta uma equipe de saúde. Normalmente, tinha-se a impressão errada, que isso era feito só em hospitais especializados. O transplante para o receptor, muitas vezes sim, mas com relação à doação, todo hospital é um grande potencial doador também. Assim, o que faltava eram as informações dessas equipes, mostrar que, independente de se o hospital é ou não um hospital transplantador, esse hospital tem pacientes que podem ser doadores, e a partir daí, começar a comunicar essa situação à comunidade de saúde. Isso precisa de um preparo. È exatamente neste ponto que eu queria chegar. Vocês estão dando cursos, divulgando para preparar as equipes de todos os hospitais locais onde há pacientes que possam ser doadores? Primeiro, como comunicar, assim como a distribuição dos órgãos captados já vi que está bem organizada com o sistema UEP, mas a captação também está dessa forma? Como é feito, por exemplo, se estou num hospital no interior do Brasil e lá eu vejo que tem um paciente potencial doador. Como eu comunico isso?” Dr. Reginaldo respondeu: “Primeiramente eu gostaria de lembrar que eu consigo falar alguma coisa sobre o Estado de São Paulo. Em relação ao Brasil, este é um país muito complicado para dar uma resposta, porque temos tantas situações diferentes e tantas formas de organização. Isso que eu mostrei aqui de termos organização de procura de órgãos, só tem aqui em São Paulo. Não temos isso nos ouros Estados. A segunda coisa é que muitos hospitais do Estado de São Paulo possivelmente não vão conseguir efetivar doadores, mesmo que haja interesse do médico ou a disposição da família. Isso não é um problema da captação de órgãos, mas do diagnóstico de morte encefálica. Não devemos fazer o diagnóstico de morte encefálica para quem pode ser doador, e temos sim que fazer o diagnóstico de morte encefálica para todo e qualquer paciente que tiver suspeita do diagnóstico. Por exemplo, o caso de um paciente HIV positivo, quando há uma contra indicação formal para doação de órgãos. Eu deveria, como profissional de saúde, fazer o diagnóstico da morte encefálica. Eu posso facilitar à família o direito à desconexão do respirador, pois já está legalizado no Brasil. O problema da doação não é problema da família e não é problema de ter acesso à informação. O problema é o diagnóstico. O diagnóstico no Brasil está apoiado em dois exames clínicos, mais o exame complementar. Até o exame clínico acho razoável e todos têm condições de fazer. Muitas vezes os hospitais não têm como fazer o exame complementar. Isso é a realidade em que a gente vive. Aqui em São Paulo, com uma forma de aumentar o diagnóstico, o Estado há cerca de dois anos fez uma licitação para a Grande São Paulo. Assim, tornaria possível realizar o diagnóstico, aumentando as doações. Nos próximos dias, ou provavelmente no próximo mês, já teremos uma situação diferente, algo que chamamos de convocação pública, na qual várias equipes e empresas dizem que têm condições de fazer um Doppler craniano e o eletroencefalograma. Portanto, são várias equipes, e eu motivo cada um de vocês, se tiverem equipes, que façam Doppler craniano e eletroencefalograma. “Elas podem, na abertura de uma nova convocação, prestar serviços para os hospitais de vocês.” Dr. Eduardo Sadao passou a palavra às entidades participantes, as quais fizeram seus comentários, questionamentos e debateram sobre o tema, tendo obtido respostas muito pertinentes do Dr. Reginaldo Carlos Boni. O debate poderá ser melhor acompanhado através do vídeo do evento que se encontra na página do projeto EDUCASUS www.educasus.org.br. Dr. Sadao agradeceu a presença de todos e deu por encerrada a sessão.

Entidades participantes:

SANTA CASA DE MIS. DE ITAPEVA; IRM DA SANTA CASA DE MIS. DE LORENA (Dra. Valeria Ude – Ginecologista e Obstetra da entidade); IRM DA SANTA CASA DE MIS. DE MARÍLIA – não linkado; IRM DA SANTA CASA DE MIS. DE PIRACICABA (Sr. Othoniel Roberto Cavion – Coordenador Administrativo da entidade); IRM DA SANTA CASA DE MIS. DE SOROCABA – não linkado; IRM DA SANTA CASA DE MIS. DE VOTUPORANGA; FEHOSP – não linkado; HOSPITAL SÄO LUIZ GONZAGA – não linkado; HOSPITAL GERAL DE GUARULHOS – não linkado; SANTA CASA DE MIS. DE RIBEIRÃO PRETO (Dr. Paulo Sadala); SANTA CASA DE MIS. DE OURINHOS; FUNDAÇÃO AMARAL CARVALHO / JAÚ.

Participantes:

Prof. Dr. Eduardo Sadao Yonamine (Coordenador de Ensino à Distância de Telemedicina da FCMSCSP).

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