Humanização no Atendimento Pediátrico.

13/10/2009 - 11:00 hs às 12:00 hs

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Localidade: Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo

Coordenador(a): Prof. Dr. Eduardo Sadao Yonamine.

Palestrante: Dra. Eliana Biondi Medeiros Guidoni

Professora Assistente da Pediatria, Mestrada e Doutorada em Pediatria pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Atua como Médica em Nefrologia Infantil.

1) A Dra. Eliana Biondi Medeiros Guidoni iniciou a videoconferência agradecendo o convite para participar do projeto, e lembrando que iria falar sobre Humanização no Atendimento Pediátrico;

2) Dra. Eliana comentou que quando se fala em humanização, diz respeito ao sujeito, ao ser humano, ao ser doente, ou seja, à centralidade da vida humana. A medicina intervencionista tem progredido muito nos últimos anos, porém, a relação com o paciente não tem acompanhado esta evolução de forma adequada. Tem-se observado um embrutecimento dos profissionais de saúde, o que gera desvalorização do ser humano. È muito comum frente a um tratamento, observar a redução das pessoas a meros objetos. Eles podem ser manipulados pela clínica, pela saúde pública, visando o tratamento e a melhoria da doença, assim como o prolongamento da vida. O objetivo é ver o paciente de forma integral. Essa situação é uma realidade? Existe certa evidência dessa degradação na relação com o paciente. Por exemplo, foi realizada uma avaliação com o público em 2001, na qual foi possível verificar que, a forma do atendimento e a capacidade dos profissionais de saúde para compreender as necessidades e expectativas do doente foram os fatores mais valorizados nesse questionário, do que a falta de médico e de leitos hospitalares. Esse questionário foi feito pelo então ministro José Serra, que baseado nesses resultados lançou o Programa Nacional de Humanização no Atendimento Hospitalar (PNHAH). Pôde-se então observar que estas relações eram desumanas. Na verdade, essas são ações humanas, fruto talvez da falta de preparo acadêmico dos estudantes, do automatismo, da rotina a que são submetidos no dia a dia, do anonimato gerado pelo atendimento em equipe, pela falta de envolvimento pessoal entre o profissional e o paciente, ou até mesmo com a família do paciente;

3) Dra. Eliana questionou se é possível prolongar a vida, e ao mesmo tempo torná-la mais humana. Essa situação pode se tornar possível apenas se atendo a alguns princípios, principalmente ao da visão multidisciplinar. É importante unir a visão de diversos profissionais envolvidos no tratamento do mesmo doente, na relação entre os profissionais e o paciente, sempre verificando se ele já conta com um médico, um enfermeiro, um fisioterapeuta, um psicólogo, um nutricionista, um fonoaudiólogo, terapeutas ocupacionais e assistente social. A ideia é propiciar diversos olhares para o mesmo paciente, visando um entendimento global. Esse entendimento não deve ser voltado apenas para a doença em si, mas para o aspecto social, familiar, profissional, pessoal e emocional. Desta forma, é possível realizar uma discussão mais abrangente do caso, uma otimização do tratamento, uma abreviação da hospitalização, um restabelecimento da saúde do paciente de forma integral;

4) Dra. Eliana explicou que o paciente deve ser orientado frente a seu tratamento, não como mero paciente, ou seja, como um agente passivo em relação a sua doença, e sim como um paciente ativo, atuando positivamente em sua recuperação. Como resultado, o paciente aprende a responsabilizar-se por seu equilíbrio, passando a ser, ele próprio, o agente da sua própria saúde. Nota-se que a proposta da humanização nada mais é do que a defesa da vida, sendo o objetivo principal da medicina intervencionista, através do restabelecimento integral do ser humano. Portanto, o trabalho em saúde se humaniza quando busca combinar a defesa de uma vida mais longa (medicina intervencionista) com a construção de padrões de qualidade de vida concreta para o doente;

5) Dra. Eliana ressaltou que, para que se possa, efetivamente, atuar dessa forma, é necessário seguir dois conceitos básicos. O primeiro é a resiliência, ou seja, cada indivíduo nada mais é do que um conjunto em equilíbrio do ponto de vista biopsicossocial. Este equilíbrio é comum a cada indivíduo, porém, numa situação de crise, há uma queda desse equilíbrio, a qual não irá, necessariamente, restabelecer-se em sua totalidade com o tratamento da doença. Cabe aos profissionais da saúde oferecerem opções e darem apoio para que este paciente possa encontrar um novo equilíbrio frente a sua doença. A consequência desta situação é denominada resiliência. É importante verificar se este desequilíbrio está ligado ao stress crônico, o qual acontece quando a resposta fisiológica não ocorre adequadamente. Assim, a frustração e a angústia geram um desequilíbrio hormonal e emocional, que causam um distúrbio de comportamento. Da mesma forma, essa desestruturação pode levar a uma queda do sistema imunológico, ocasionando um ciclo negativo e podendo interferir na eficácia e no resultado do seu tratamento;

6) Dra. Eliana esclareceu que, sempre que o profissional for atuar com humanização, ele deve estar atento aos fatores que geram reequilíbrio para o paciente e para a família. Com relação aos pacientes pediátricos, um dos fatores principais é a presença da família. A presença da família não deve ocorrer apenas na consulta e no exame, mas também, na internação. Isso tudo foi possível através do Programa da Mãe Participante, o qual foi um grande avanço na área pediátrica, ocorrido na década de 90, permitindo que um familiar, em geral a mãe, acompanhasse a criança durante a internação. A partir de então, aconteceram significativas melhoras, tanto em relação à aderência dessa criança ao tratamento, quanto ao tempo de internação. Outro fator muito importante para a criança é a quebra de seu meio ambiente, ou seja, ela é tirada de seu domicílio e passa a viver em um ambiente totalmente diferente, o ambiente hospitalar. A ideia é transformar esse espaço para crianças, deixando mais acolhedor. Assim, a recuperação dessa criança estará sendo favorecida. É importante ficar sempre atento aos fatores que levam a um distúrbio psicossomático. O mesmo gera distúrbio de comportamento, de ajuste frente a seu diagnóstico e ao tratamento. No momento inicial do diagnóstico, o que é perceptível é a negação do diagnóstico. Essa é uma negação recidiva ou talvez ocasionada por um insucesso no tratamento. Em primeiro lugar, é importante dar tempo a esse paciente e a sua família para que eles possam assimilar essa mudança. Também é importante que o profissional possa avaliar o grau de informação que foi assimilado sobre a doença e sua gravidade. Talvez seja necessário fazer uma nova abordagem, a fim de se conseguir uma assimilação melhor;

7) Dra. Eliana comentou que a negação pode estar sendo acobertada através de um pacto de silêncio, quando o profissional tem uma falsa impressão de que haja estabilidade na família. Contudo, é muito importante reconhecer que esta negação, a qual é resultado de algum distúrbio. A família ou mesmo o paciente devem ser prontamente assistidos e recolocados frente à doença e seu tratamento. A revolta é vista com muita freqüência em pacientes, no cuidador ou em outros membros da família. Ela se mostra através de: raiva, sadismo, inconformismo ou ressentimento. É muito importante que a equipe perceba esse distúrbio para que seja possível direcionar positivamente essa agressividade, porque ela pode, quando despercebida, gerar um mecanismo de contra agressão em relação à equipe. Não é comum encontrar pacientes ou a própria família que deixam alguns profissionais chateados por ter que lidar com essa situação, já que esse tipo de mecanismo irá interferir no processo do tratamento. Então, é preciso ficar de olho, tanto em relação ao paciente e a família, quanto em relação à equipe que está cuidando do caso. A barganha é comum no caso de crianças menores portadoras de doenças crônicas, podendo ser utilizada de forma positiva, inclusive para adesão e melhora do tratamento. Deve ser usada com cuidado para que não interfira no sucesso do tratamento. Da mesma maneira, pode-se utilizar o ganho secundário, quando o paciente visa benefícios materiais ou mesmo emocionais, ocorrendo de maneira consciente ou inconsciente para compensar ou atenuar a dor e as perdas causadas pela doença. Deve ser usada de forma positiva e com limite, visando a melhora na aderência ao tratamento;

8) Dra. Eliana explicou que a depressão, infelizmente, é um distúrbio muito frequente em pediatria. Ocorre geralmente em casos de doenças graves, crônicas, sendo ainda mais frequente em pacientes adolescentes, os quais estão atravessando uma fase de fragilidade e estão mais predispostos a esse tipo de manifestação. Contudo, é preciso estar atento, porque pode estar presente em qualquer faixa etária. É muito importante deixar o paciente exteriorizar a dor, a perda e seu sentimento. Reforçar a auto-estima, a reorganização perante a doença, as consequências e sequelas, mas sempre atento, porque a qualquer momento o paciente pode vir a precisar de uma terapia psicológica ou mesmo o uso de antidepressivos. É importante tomar muito cuidado, porque essa situação pode gerar um envolvimento emocional do profissional, podendo interferir no tratamento em relação, principalmente, à quantidade e à qualidade de vida. Deve-se ter uma atenção especial em relação ao grupo de adolescentes;

9) Dra. Eliana mostrou o que existe hoje na Santa Casa em relação aos aspectos de humanização no atendimento à criança dentro do pavilhão de pediatria. Estão disponíveis equipes multidisciplinares, as quais atuam em conjunto, um corpo grande de voluntários, muito atuante em relação ao convívio direto com essas crianças. No espaço físico há uma brinquedoteca, um parquinho, além de contar com alguns grupos que atuam diretamente com as crianças. O grupo de alunos da Faculdade desenvolve dois projetos na Santa Casa: Projeto Colinho e Projeto Santa Maluquice. Esses dois projetos atuam com crianças e adolescentes de todas as faixas etárias. Há também um projeto que visa principalmente o atendimento e a companhia para aquelas crianças que não dispõem de acompanhantes. Este projeto é denominado Mãe Participante. A doutora mostrou mais alguns exemplos de humanização hospitalar na Santa Casa. Finalizou a palestra dizendo que se cada um dos profissionais de saúde estiver atento a esses aspectos humanos de cada paciente, e também procurar atendê-los com dignidade, sem dúvida será possível conseguir uma humanização do atendimento a esses pacientes;

10) Prof. Dr. Eduardo Sadao Yonamine (Coordenador de Ensino à Distância de Telemedicina da FCMSCSP) tomou a palavra e fez a seguinte pergunta: “Como envolver todo o departamento e equipes? Como começar a fazer isso? Depois dele montado, vejo que é um departamento de sucesso em tudo que se está implantando, mas aquele início foi difícil. Nesse início, quais são os principais problemas ou qual o principal aprendizado que podemos trocar quando se começa a montar este projeto com petsmile, brinquedoteca? Como vocês começaram tudo isso?” Dra. Eliana respondeu: “Bom, eu acho que esses projetos todos vêm da observação e da motivação. Na observação é possível observar que existe uma necessidade que pode ser melhorada com atitudes simples. Motivar o grupo de profissionais que está presente, voluntariados e mesmo os acadêmicos, foi uma coisa que surtiu um efeito muito interessante. Na verdade, nem sempre todos os projetos foram à frente. Então, foram modificados e adaptados, sendo que sempre alguma coisa nós conseguimos, e a partir daí, você vai adequando de acordo com os resultados que você obtém e vai formando projetos que possam ser mais viáveis, tanto para quem fornece esses benefícios, quanto para os pacientes que estão recebendo. Principalmente, os pacientes internados. Porém, há uma coisa que funciona no nível de laboratório.” Dr. Eduardo Sadao passou palavra às entidades participantes, as quais fizeram seus comentários, questionamentos e debateram sobre o tema, tendo obtido respostas muito pertinentes da Dra. Eliana Biondi Medeiros Guidoni. O debate poderá ser melhor acompanhado através do vídeo do evento que se encontra na página do projeto EDUCASUS www.educasus.org.br. Dr. Sadao agradeceu a presença de todos e deu por encerrada a sessão.

Entidades participantes:

SANTA CASA DE MIS. DE ITAPEVA; IRM DA SANTA CASA DE MIS. DE LORENA; IRM DA SANTA CASA DE MIS. DE MARÍLIA – não linkado; IRM DA SANTA CASA DE MIS. DE PIRACICABA (Sr. Othoniel Roberto Cavion – Coordenador Administrativo da entidade); IRM DA SANTA CASA DE MIS. DE SOROCABA; IRM DA SANTA CASA DE MIS. DE VOTUPORANGA; FEHOSP (Maria Fátima da Conceição – Gerente Técnica); HOSPITAL SÄO LUIZ GONZAGA; HOSPITAL GERAL DE GUARULHOS – não linkado; SANTA CASA DE MIS. DE RIBEIRÃO PRETO; SANTA CASA DE MIS. DE SANTOS; SANTA CASA DE MIS. DE BARRETOS; FUNDAÇÃO AMARAL CARVALHO / JAÚ; SANTA CASA DE MIS. DE OURINHOS; SANTA CASA DE MIS. DE FRANCA.

Participantes:

Prof. Dr. Eduardo Sadao Yonamine (Coordenador de Ensino à Distância de Telemedicina da FCMSCSP);

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